sexta-feira, 7 de março de 2008

Flagrante delito II - a paura

Como eu havia prometido, conto aqui a história do quase-flagra que quase foi a minha perdição. Certo dia à tarde, poucos anos depois da experiência que eu relatei anteriormente, eu estava em casa de bobeira, lendo no quarto, quando minha mãe avisou que iria sair para o grupo assistencial que ela freqüentava. Pelo menos uma vez por semana, minha mãe se reunia com um grupo de mulheres para um trabalho assistencial dirigido a famílias pobres (tarefa, aliás, muito meritória). Como ela passava a tarde inteira nisso, eu calculei que ela iria ficar umas quatro horas fora de casa. Uma vez que eu estava sem fazer nada numa casa vazia (e como diz o ditado, "a mente desocupada é o jardim do diabo"), pensei: "que tal um bondagezinho?"

Pois bem, depois de dar um tempo após a saída da mama, peguei minha fita adesiva de empacotamento, uma tesoura grande na cozinha, minhas algemas e fechei a porta do meu quarto. Lá, tirei toda a minha roupa, dobrei e guardei-as no armário, algo que eu fazia talvez para que nem a visão das minhas roupas me fizesse sentir menos nua (ótima decisão). Depois disso, eu tampei minha boca com um pedaço de fita, com um pedaço maior atei cuidadosamente meus tornozelos e prendi minhas mãos nas costas com as algemas (péssima decisão). As chaves, como sempre, ficavam num bolsinho fechado a ziper dentro da minha mochila, ao pé da cama.

Pois bem, depois de devidamente imobilizada no tapete do chão do quarto, curtindo meu selfbondage, talvez uma hora mais tarde (quem sabe um pouco mais), o que eu escuto? O barulho da porta da frente sendo aberta, seguido de vozes abafadas pela porta fechada. Naquela hora eu parei de me mexer (e meu coração também), tentando entender o que estava acontecendo. Não deu outra: era minha mãe, que voltava da reunião muito mais cedo do que eu esperava, e pior, acompanhada de uma amiga. Minha mãe começa, então, a chamar meu nome em voz alta, o que me fez gelar o corpo inteiro. "E agora, o que fazer?" Minha mãe me encontrar naquele estado seria o fim do mundo.



Antes que a voz dela me chegasse com mais nitidez, eu rolei rapidamente para debaixo da minha cama. Sabem aquelas colchas enormes, pesadas, costuradas à mão, que cobriam as camas em certas casas, chegando até o piso? Pois é, foi a minha salvação. Para cessar o movimento da barra da colcha, eu usei meu próprio corpo e depois rolei até chegar na parede. Foi o tempo certo. Minha mãe bateu na porta do meu quarto, chamando meu nome, e entrou. Meu coração batia tão alto que fiquei com medo que ela ouvisse. Daí aconteceu o impensável: ela entrou, pegou a fita adesiva no chão, guardou-a na minha mochila e a encostou no canto da cômoda. A tesoura, ela levou de volta à cozinha. Certamente ela deve ter imaginado que eu estava fazendo algum trabalho do colégio e havia largado o material no chão do quarto. Ao sair ela ainda deixou a porta aberta, para o mal dos meus pecados. Suponho que ela deve ter pensado que, uma vez que não havia ninguém no quarto, não fazia sentido deixá-lo fechado.

Aí danou-se, pensei comigo mesma. Com a porta aberta, sem a tesoura, a mochila longe e a casa "cheia", como eu iria sair daquela encrenca? Que situação aflitiva... Tentei livrar meus tornozelos com toda a força que eu tinha, mas foi impossível, ainda mais num espaço tão estreito quanto embaixo de uma cama. Fiquei um tempão tentando, até suar pelo esforço de não encostar no estrado e nem gemer ou mesmo respirar muito alto. Por fim, acabei desistindo. Senti vontade de chorar, porque não via solução para o meu caso, mas até chorar eu tive medo, pois alguém podia escutar meus soluços. Até que me acalmei, respirei fundo e decidi sair da segurança da cama, mesmo me arriscando a ser flagrada. O que mais eu podia fazer a não ser tentar escapar? Se chegasse a noite, meu pai voltaria do trabalho e aí a coisa ia ficar punk. Daí que resolvi arriscar. Melhor uma heroína viva do que uma covarde morta.




Minha mãe ficou um bom tempo com essa amiga conversando na sala; depois escutei passos no corredor e por fim as vozes delas na cozinha. Eu coloquei a cabeça para fora da cama, depois de verificar que estava tudo bem, rolei o corpo inteiro para fora e enquanto elas tagarelavam na cozinha, eu me levantei e mesmo morrendo de medo, fui pulando até chegar ao lado da cômoda e me sentar no chão. A sorte é que a cozinha ficava longe, de lá não se conseguia ver meu quarto, e quem passasse pelo corredor não conseguiria ver inteiramente o outro lado da cômoda (o lado em que eu estava), a não ser minhas pernas, se eu as esticasse. Com as mãos nas costas, suando frio, eu tateei minha mochila até encontrar o bolsinho e tirar as chaves.

Toda essa operação me pareceu durar uma eternidade, porque eu fazia tudo bem devagar, a fim de não provocar o menor barulho. Meu coração batia tão forte que eu pensei que iria ter um enfarto. Depois de verificar se ninguém estava no corredor, voltei pulando para perto da cama, me abaixei e rolei para a segurança do meu esconderijo oculto pela colcha. Então, com boa dose de paciência, vencendo o nervosismo, eu abri as algemas no maior silêncio possível, retirei minha mordaça (minha boca estava mais seca do que língua de papagaio), e comecei a retirar a fita dos tornozelos. Que falta me fez a tesoura da cozinha!. Quando eu finalmente me vi livre, depois de uma vida e meia, pude descansar um instante, coisa que até então não havia feito. Mas aí a "Lei de Murphy" desabou sobre mim com todo seu peso, pois quando eu estava tomando coragem para sair debaixo da cama, as duas saíram da cozinha e voltaram para a sala. Que frustração! Como eu conseguiria pegar minhas roupas?



Esperei uma eternidade até as duas esgotarem o assunto na sala, porque já não tinha mais coragem de me arriscar a sair debaixo da cama. Uma coisa é escutar um barulhinho quando se está na cozinha, lugar onde normalmente se faz barulho. Outra bem diferente é escutar algo enquanto se está na sala, conversando num tom de voz normal. Daí que, sem a coragem de antes, me deixei ficar debaixo da cama, nua como vim ao mundo, esperando a situação mudar. Cada minuto parecia uma hora. Foi um grande teste para minha paciência. Meus pensamentos se multiplicavam, mas eram todos pessimistas. Se eu fosse flagrada, não teria como explicar a situação adequadamente e a vergonha seria insuportável.



Mas a situação mudou, felizmente. A amiga se despediu, foi embora e minha mãe resolveu tomar um banho. Foi a oportunidade que eu precisava. Quando ouvi o chuveiro ligado, esperei um pouco e rapidamente saí do meu esconderijo. Vesti umas roupas e fiz um teatrinho, saindo do quarto e indo para a porta de entrada, que eu abri e fechei sem me mexer do lugar. Depois, bati na porta do banheiro e disse (cínica): "Mãe, voltei!" . Trocamos algumas frases cotidianas e corri para o quarto, a fim de esconder as provas do meu crime: guardar as algemas, fazer uma bola com a fita adesiva e jogá-la fora, essas coisas. Assim que minha mãe saiu, eu resolvi também tomar um banho, suada e cansada que eu estava. Só relaxei quando me enxuguei e me olhei no espelho, me xingando e ao mesmo tempo rindo de mim mesma em pensamento ("Sua doida!! Onde é que você `tava com a cabeça?!).

Hoje, rememorando aquela experiência, eu posso até rir de certos momentos, mas na ocasião foi motivo de muita angústia para mim. Depois eu pensei que se eu não fui flagrada naquele dia, acho que eu não seria nunca mais. O fato é que nada daquilo foi culpa minha, pois não há planejamento que resista a uma mudança de planos de outra pessoa. Tudo isso acabou quando eu terminei a faculdade e comecei a morar sozinha. Hoje eu faço meus horários e meu planejamento das práticas de bondage quase não tem surpresas. Digo quase porque sempre há algum elemento imponderável no que diz respeito ao meu fetiche.



Fazendo um parêntese a título de conclusão: na Grécia antiga, dizia-se que havia muitos deuses, para quase todas as atividades humanas. Havia Dionísio, o deus do vinho, Hermes, o deus dos mensageiros, Ares, do deus da guerra, etc, etc. Naquele dia, acho que eu comecei a acreditar que existia um deus ou uma deusa do bondage, que protegia a mim, sua discípula. Depois daquilo, eu fiquei algumas semanas meio traumatizada, com medo de voltar às minhas "práticas solitárias". Depois eu desencanei e voltei à carga. O desejo sempre fala mais alto em matéria de fetiches.

2 comentários:

Misty* disse...

Val, como fiquei uns dias sem postar, acabei não vindo ler seu blog, que teve uma boa produção nos últimos dias. Uau!, você escreve muito bem (não só em forma e correção, mas em conteúdo e tiradas ótimas). Seus posts sobre o Flagrante Delito foram as melhores descrições que já vi dessa realidade. Eu me vi ali em vários detalhes. Guarde esse material pra um livro. :)

Valeria Z. disse...

Muito obrigada, Misty. É muita gentileza sua, mas acho que sou mais competente como leitora do que seria como escritora. Seja como for, não é uma má idéia escrever um livro de "contos em bondage". Material é o que não me falta, pois já vivi algumas experiências interessantes nessa área. Bjos!