domingo, 21 de fevereiro de 2010

A inquietude e o grande vazio


Houve um tempo em que eu sonhava em viajar pela Europa, visitando todos os museus e galerias por onde eu passasse. Eu flanaria sem compromisso por ruas medievais e praças com fontes esculpidas. Eu também já sonhei em rodar pelos Estados Unidos, costa a costa, de Nova York a Los Angeles, com um chapéu de cowboy e o rádio ligado, escutando rock e country sem parar. Também já me imaginei como imigrante, vivendo em diversas cidades do mundo, de Londres a Hong Kong, de Madri a Houston, de Tóquio a Lisboa.

Com o passar do tempo meus sonhos foram sendo refinados e no fim das contas acabei ficando por aqui mesmo. Pelo menos vi dois deles se realizarem: eu passei a morar sozinha e consegui um emprego. De todos os meus grandes sonhos do passado, apenas dois sobreviveram. Não é um saldo muito positivo, mas foi o que ficou. Eu sei que na infância e na juventude todos nós somos grandes sonhadores e é no contato com a "vida real" que muitos dos nossos sonhos se transformam em fumaça ou se revelam como a fantasia ingênua que sempre foram. Mas a questão não é essa. A questão é que houve um tempo em que eu sonhava, independentemente do teor dos sonhos.

Hoje eu não sonho mais, nem sonhos fantasiosos nem acessíveis. Me conformei, aceitei a vida como ela é e já não tenho desejos, aspirações ou fantasias. O problema é que nos últimos tempos eu tenho andado meio inquieta, sem motivo aparente e só posso atribuir isso à diferença entre aquilo que eu gostaria de ser, de fazer e de estar com aquilo que sou, faço e onde estou atualmente. Essa inquietude subjetiva não tem absolutamente nada a ver com a falta de um marido ou de um parceiro bondagista (explicação mais simplista e rasteira, impossível). Também não acredito que a causa seja depressão ou distimia. É mais uma questão existencial do que física e não vai ser um comprimido que vai resolver meu problema.

Eu acredito não ser a primeira nem a única a sentir falta de algo indefinível, uma sensação que nem ao menos consigo definir exatamente com as palavras mais precisas, mas eu não conheço ninguém do meu círculo de relações que sinta o mesmo que eu. Todos parecem tão satisfeitos, tão ajustados à vida que levam, que minhas inquietudes íntimas soam até obscenas se comparadas com o que eu já obtive na vida em termos de saúde, emprego, moradia e namorados. É como se eu estivesse sendo ingrata com Deus por tudo aquilo que eu recebi da vida, mas o que eu posso fazer? É assim que eu tenho me sentido ultimamente e ponto final. Nem sempre se pode controlar os próprios sentimentos.

A coisa ficou mais séria no fim do ano passado, quando eu passei as duas últimas semanas na casa dos meus pais. Pensando na minha vida, eu me senti meio como o personagem da música "Ouro de Tolo", de Raul Seixas. Não que eu não sinta prazer lendo, praticando bondage, transando, malhando ou saindo com amigas(os). O problema é como eu me sinto quando não estou fazendo essas coisas que me dão prazer. Nessas horas até vontade de chorar eu já senti. E eu não quero ficar como esses tipos workaholic, que passam horas no trabalho para não terem que voltar para casa e encarar a depressão de suas vidas.

Eu não sei exatamente como solucionar isso, mas já percebi que viagens a lugares onde nunca fui, esportes que nunca pratiquei, novos amores e outras medidas semelhantes apenas me distraem momentaneamente, não sendo capazes de arrancar essa erva daninha de melancolia pela raiz. Eu preciso dar um jeito na minha vida nos próximos dois anos, pois do contrário não sei o que será de mim. Não que eu vá me suicidar, pois não sou tão estúpida a esse ponto e sei que isso não resolveria a situação (pelo contrário, apenas a agravaria), mas se até 2012 não aparecer alguma novidade, sou capaz de fazer uma gauchada, como se diz no sul.

Eu preciso de uma grande novidade na minha vida, é disso o que eu mais preciso. Algo que me agite, que me revolucione, que transforme meu futuro por inteiro, ou mesmo "o inevitável", como diria Paulo Coelho. Eu preciso de uma novidade ou uma experiência que seja o divisor de águas na minha vida, não menos do que isso.

Quando foi que eu abandonei meus sonhos e deixei que minha vida se transformasse numa grande tarde de domingo?

2 comentários:

André Pinho disse...

Diariamente leio um blog ou dois, aleatoriamente mesmo, não crio critérios pois sei que posso encontrar algo interessante mesmo nos assuntos mais distantes de minha realidade. Hoje por acaso encontrei seu blog, comecei a ler do primeiro post. Pra ser sincero não me atraiu em nada, mais pelo fato de que 70% dos posts falam sobre suas fantasias e os 40% restantes do quanto você está afim de realiza-lás. Não que bondage não seja um assunto interessante a nível de estudo da condição humana, mas pessoalmente não é algo que já senti vontade de fazer ou sequer vou chegar a sentir. Enfim, foi um passatempo, até eu chegar neste texto, este texto descreve o que a maioria das pessoas esconde, e que por diversos motivos preferem que fique assim. Sou uma dessas pessoas, e é triste o fato de que esse sentimento acabou se tornando algo "comum" em minha vida. Não importa o quanto tentamos nos distrair, ele acaba te alcançando no final. Bom, eu não tenho respostas ou solução pra isso, e também não quero que pense que em algum momento comentei aqui por ter a intenção de "querer algo com você", longe disso, só quero que saiba o quanto é especial e que lembre disso a cada vez que se sentir triste.

Um abraço.

Valeria Z. disse...

Muito obrigada pela gentileza. Em momentos como esses que estou enfrentando, isso é muito importante. Bjs e obrigada pela visita!