quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Camila


Naquela noite, a brisa estava perceptivelmente mais fresca do que nos outros dias da semana, e o manto de trevas da noite parecia mais escuro. Todos os barzinhos estavam lotados e as mesas se espalhavam pela calçada, acabando por emendar com os outros bares da região. Entre a variada fauna local, quase todas as assim chamadas tribos urbanas estavam representadas: de roqueiros a motociclistas, de hipsters a jiujiteiros.

Recém chegada ao lugar, Júlia conferiu atentamente todas as faces do grupo de góticos reunido em torno da mesa de madeira de determinado bar. Evento raro, pois normalmente as criaturas da noite se reuniam na calçada mesmo, em torno de uma única garrafa de vinho barato. Na ponta da mesa ela encontrou quem estava procurando, e um leve sorriso traiu sua satisfação interior. Convenientemente ela conhecia um dos góticos e decidiu falar com ele. Graças à sua postura extrovertida, em poucos instantes Júlia foi convidada a sentar-se com o grupo. Ela decidiu, então, sentar-se à ponta da mesa, para ficar próxima ao objeto de sua procura: Camila.

Camila era o sonho de toda garota gótica: esguia, pele branca e cabelos negros como as penas de um corvo. Seu olhar enigmático e sua postura discreta faziam com que ninguém soubesse exatamente o que ela estava pensando, em nenhuma ocasião. Ainda assim, estava sempre cercada de amigos variados e era sempre convidada para shows e eventos góticos, mesmo que se soubesse com certeza onde ela morava e em que trabalhava. Ninguém sabia, tampouco, sua idade, mas todos garantiriam estar com 20 e tantos anos. Júlia, por sua vez, era quase o oposto. Loura, ainda adolescente e vivendo com os pais, cursava o ensino médio e pertencia à turma dos roqueiros, não tendo nada em comum com os góticos a não ser algum eventual conhecido. Encontrar Camila naquela noite, depois de tanto procurá-la em shows e em bares temáticos, foi um prêmio para Júlia, e ela não perdeu tempo em iniciar uma conversa, antes que a gótica fugaz desaparecesse novamente nas brumas da noite.

- Oi, eu sou a Júlia. Alguns me chamam de Jubs.

- Prazer. Meu nome é Camila. Bonita sua camiseta. Você gosta do Therion?

- Pra falar a verdade, não. Prefiro Guns, Hellacopters, The Darkness, por aí. Esta camiseta eu uso pra phishing

- Phishing?

- É, eu quero ver se, entre os fãs do Therion, consigo encontrar alguém que conheça o Caminho da Mão Esquerda. Sabe o que eu quero dizer?

- Sei. Thomas Karlsson, o vocalista da banda, foi o criador da ordem mágica "Dragon Rouge".

- Eu sabia que você ia entender.

- Então você se interessa por Ocultismo? Vou ser sincera: não acho muito racional andar por aí vestindo camiseta do Therion pra ver se encontra alguém iniciado na Dragon Rouge. É o mesmo que andar com uma camiseta do Led Zeppelin esperando encontrar algum Thelemita. O máximo que você vai conseguir é conhecer garotos que curtem Metal Melódico. De que mais você gosta?

- Bondage

Camila encarou os olhos verdes de Júlia fixamente, antes de tomar mais um gole de vinho. Parecia óbvio que a garota a conhecia.

- Você não me encontrou por acaso, não foi? 

- Na verdade, não. Já havia lido sobre você na internet. 

- Na net? Onde, exatamente?

- Num forum sobre bondage, na Deep Web.  

- Sua mãe sabe que você acessa a Deep Web? 

A referência indireta à sua juventude incomodou Júlia, que disfarçou sua contrariedade antes de responder.

- Tem muita coisa a meu respeito que minha mãe não sabe. 

- Como seu interesse por bondage, imagino. Mas o que, exatamente, você leu a meu respeito na rede?

- Não tem absolutamente nada sobre você na Surface Web. É como se você não tivesse existência real. Descobri a seu respeito num forum sobre bondage na Deep Web. Alguém relatou que você mexe com bondage e magia negra e contou umas histórias muito hardcore a seu respeito. Foi uma sorte eu te encontrar aqui.

- E como você sabia que era eu?

- Indícios. 

Camila resolveu não perguntar que indícios seriam esses, tampouco que histórias sobre ela rolavam na Deep Web. Achou melhor ir direto ao ponto.

- E o que você quer saber de mim: bondage ou magia?

- Bondage. Sou fascinada pelo assunto, mas nunca tive com quem praticar, a não ser com alguns namorados. Mas sempre coisa light, tipo amarrar os pulsos com lenços de seda, ser vendada com máscara de dormir, essas coisas. Eu queria mesmo era experimentar uma coisa mais hard e aprender sobre o assunto, entende?

- Você não acha que é muito jovem pra essas coisas?

A nova referência à idade incomodou Júlia definitivamente, a ponto de deixá-la com um semblante sério. 

- Eu não sou nenhuma garotinha ingênua. Já li muito sobre o assunto e tenho 19 anos.

- Mentira. Quantos anos você tem, de verdade?

Júlia baixou os olhos e percebeu que não adiantava mentir. Quando olhou novamente para o rosto de Camila, decidiu revelar sua juventude.

- 17. Mas já tenho experiência no assunto, fique sabendo.

- Eu não diria que ser amarrada pelo namorado com lencinhos de seda seja uma grande experiência. Me diga, por que você quer se meter nesse universo? Tem coisas pesadas nesse meio. Muita dor, muita energia densa... Ingressar no mundo do bondage é contemplar o abismo, e como diz o ditado: "Se você olhar longamente para o abismo, o abismo também olha para você".

- Eu sei disso; eu já li "Além do Bem e do Mal", de Nietzche.

A garota não era de todo inocente, pensou Camila. A referência literária a surpreendeu, tendo em vista a ignorância profunda e generalizada dos adolescentes contemporâneos.

- O que você quer de mim?

- Que você seja minha mentora. Que você me ensine tudo o que sabe sobre bondage e, algum dia, se me achar merecedora, que também me ensine tudo sobre magia.

- Bondage e magia? Combinação perigosa. Tem certeza de que quer explorar esse universo? É possível que você não consiga encontrar o caminho de volta. 

Júlia respirou fundo antes de responder, mas sabia que não podia voltar atrás, pois não iria desperdiçar essa oportunidade única. O que havia lido na Deep Web lhe havia dado a certeza de que aquela mulher era o canal que a faria descobrir os segredos mais obscuros. 

- Sim, tenho certeza.

Camila bebeu o resto de vinho e enxugou suavemente os lábios com um guardanapo. 

- OK. Me diga o número do seu celular e eu ligo depois, para combinarmos nossa... primeira aula, digamos.

- Valeu! Muito obrigada, Camila. Você não vai se arrepender de me ter como aluna, garanto.

Camila sorriu, enigmática. Enquanto Júlia procurava uma caneta para anotar o número do celular num guardanapo de papel, a gótica observava o belo corpo da garota. Como ela ficaria nua, num hogtie? Melhor não pensar nisso e começar com calma, para não assustá-la. Depois ela poderia aumentar gradativamente a intensidade das experiências, até que a garota se arrependesse de tê-la conhecido. Mas isso ficaria para depois.

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