sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Camila - parte 3


Na semana seguinte, Júlia retornou ao ap. de Camila, naquele bairro decrépito. Mas ela não esperava encontrar o interior tão modificado. A decoração do apê havia mudado inteiramente, de minimalista a romântico. Sofá com estampas florais, quadros de orquídeas em molduras de madeira clara, paredes em tom bege e, ao invés do futon japonês, uma cama com lençóis brancos e filigranas douradas. O enorme baú, no entanto, continuava no mesmo lugar, aparentemente com o mesmo conteúdo.

- O que aconteceu com a decoração do seu ap.? Está totalmente diferente.
- Eu gosto de mudar de vez em quando. Você não?
- Gosto... e aliás, achei muito bonita sua nova decoração.
- Ótimo, agora vamos ao que interessa. O que você sabe de bondage?

Júlia explanou o pouco que sabia sobre o assunto e contou sua experiência na área, limitada a apenas dois namorados, tão novatos como ela. Camila então começou a discorrer sobre tipos de cordas e modos de amarrações; nada que não pudesse ser encontrado na internet, com a diferença de que ela exibia as cordas e preparava os nós enquanto falava. Explicou sobre self bondage e sobre parceiros de bondage. Ressaltou a importância das medidas de segurança e dos primeiros socorros. Discorreu sobre tudo, de psicologia humana a medicina, e de anatomia a exercícios físicos, mas o que ela parecia mais gostar de falar era sobre detalhes aparentemente simples, mas que - segundo ela - os praticantes nem sempre prestavam atenção.

"Nunca deixe as cordas tão firmes a ponto de cortar sua circulação sanguínea. Mas também não as deixe frouxas demais, a ponto de poder se soltar com facilidade. Se você for amarrada por outra pessoa, e caso essa pessoa vá amordaçar você, lembre-se de verificar esse detalhe antes de ser amordaçada, para poder fazer os ajustes em tempo hábil. Depois de amordaçada vai ficar mais difícil, senão, impossível".

"Não se esqueça de lavar as cordas de algodão, por uma questão de higiene, pois o material acumula suor e poeira, como qualquer tecido."

"Nunca, mas nunca mesmo, se esqueça de ter à mão um Plano B, ou seja, uma forma de escapar da imobilização, seja uma faca ou uma tesoura (ambas sempre afiadas) ou as chaves das algemas num lugar minimamente alcançavel. Não cometa a loucura de, por exemplo, grudar as chaves no teto do quarto se estiver com a intenção de praticar sozinha."

Depois dos inevitáveis mas aborrecidos detalhes técnicos, Júlia estava achando aquelas dicas realmente interessantes.

- Se quiser ter uma experiência criativa nessa área, mergulhe as chaves numa forma de gelo, encha-a de água e deixe-a congelar. Depois retire a forma do congelador, tire o cubo onde estão as chaves e espere derreter naturalmente. Enquanto isso, se algeme e fique "brincando" um pouco até o cubo de gelo derreter e você poder se soltar.
- Legal! Nunca fiz isso. Só não sei como fazer com meus pais em casa.
- Para não ficar com marcas nos pulsos, prefira algemas em couro ou com fecho em velcro. Experimente, também, usar faixas cirúrgicas, dessas que se compram em farmácias. São flexíveis e resistentes ao mesmo tempo. Como se vê, dá para se divertir bastante no bondage sem precisar gastar fortunas em cordas e algemas ou correntes com estruturas complicadas. 
- Que mais?
- Além da questão do Plano B, tem outra Lei do Bondage muito importante, que você precisa ter sempre em mente: nunca, mas nunca mesmo, sob nenhum pretexto, se deixe imobilizar por uma pessoa mais doida do que você.
- Essa "lei" é engraçada. (risos)
- Estou falando sério e é muito importante que você preste atenção nesse item.

Júlia se recompôs ao ver a seriedade do rosto de Camila. A dica parecia mesmo ser importante para ela.

- Quando você está imobilizada, em bondage, você está totalmente entregue nas mãos do seu parceiro. Daí a confiança irrestrita que tem de haver entre os dois. Se você perceber que parceiro tem ideias muito diferentes das suas em questões morais e comportamentais, seria melhor você não praticar bondage com ele, por mais que esteja a fim. Lembre-se: depois de imobilizada, ele pode fazer tudo o que quiser com você; tudo mesmo - literalmente. Para evitar isso, é importante usar não apenas os cinco sentidos para avaliar seu parceiro, mas também sua intuição. Se você tiver a mínima dúvida sobre o caráter ou o equilíbrio emocional da pessoa que vai te amarrar ou algemar, melhor nem começar.
- Dá até medo.
- Não tenha medo, mas seja prudente. E nunca deixe de usar a razão e a intuição nesse caso. Procure na internet o nome "Taylor Summers" e leia a história dela. Tudo bem que foi um caso isolado, mas ao contrário do que diz o ditado popular, um raio pode sim cair duas vezes no mesmo lugar. Mesmo que não aconteça nada sério, ainda assim, se você não for cuidadosa, pode se deparar com situações muito desagradáveis, para dizer o mínimo.
- Você fala isso por experiência própria? Tipo... aquele russo que você contou?

A referência deixou Camila desconfortável, mas ainda assim conseguiu disfarçar adequadamente.

- Sim, Grigori é um bom exemplo.
- Gregório? Esse é o nome dele?
- (fundo suspiro) Grigori. Grigori Kirilenko. 
- Ele mora na Rússia?
- Ele mora em qualquer lugar, já que fala fluentemente cinco idiomas. Atualmente está vivendo em Campina das Missões, no Rio Grande do Sul. Um município tão pequeno que tem mais seguidores do Pastor Marco Feliciano no Facebook do que habitantes na cidade.
- E o que ele está fazendo lá?
- Não faço ideia. Mas tenho muita pena das garotas desse município. 
- Fiquei impressionada com aquilo que ele fez com você. Foi uma coisa consentida?
- Claro que foi consentido, do contrário eu o teria matado depois de solta.
- E foi a coisa mais hard que ele te fez?
- Uma das. Certa vez ele me amordaçou e me deitou de costas na cama. Depois, algemou meus calcanhares às minhas coxas, com as mãos amarradas atrás (tecnicamente, quase um frogtie completo), colocou dois apertadores de mamilos e, nessa posição particularmente desconfortável, me violentou selvagemente a noite inteira. Ainda bem que tenho muita resistência.
- Credo, que horror!
- O pior é que logo no início ele colocou um fone Razer Banshee nos meus ouvidos e o conectou a um notebook. Fiquei escutando música eletroacústica a noite inteira, naquela posição ingrata, sendo violentada nos intervalos em que ele não estava se encharcando de vodca. Até hoje não consigo escutar música eletroacústica sem ter vontade de atirar no infeliz que se dedica a fazer esse tipo de ruído. Mas tenho que admitir que o Grigori sempre foi muito criativo em matéria de torturas.

O clima ficou estranho, com Camila olhando fixamente um ponto imaginário além da janela. Para driblar o silêncio opressivo, Júlia indagou:

- Você vai me amarrar agora?
- Hoje, não. Vamos deixar para outra oportunidade. Precisamos ir por etapas.
- Antes de ir, posso tomar um pouco mais do seu chá? Estava uma delícia.
- Você gostou?
- Sim, dormi muito bem aquela noite.
- Naturalmente. Coloquei uma pequena dose de Kratom no chá. Antes que você me pergunte, é uma planta asiática, que é calmante em pequenas doses e estimulante em doses maiores. Hoje eu vou fazer um chá de Valeriana para nós. E se prepare, porque da próxima vez que vier aqui, eu vou imobilizar você como nunca antes experimentou.

4 comentários:

Luis disse...

poxa Val...eu fico um tempo sem vir aqui e quando venho, vejo vc fazendo referência a Campina das missões...hehehehe
Bjo

Valeria Z. disse...

Pois é, Luis. O Estado dos meus ancestrais nunca fica longe demais do meu pensamento.

Anônimo disse...

Continua com as historias da Camila Val por favor.

Valeria Z. disse...

Tenho uma boa novidade, anônimo: nova história da Camila, postada agora mesmo.