quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Eu tive fora uns dias numa onda diferente...


Voltei de um breve fim de semana no interior com o namorado, onde novamente vimos paisagens deslumbrantes e descobrimos lindas cachoeiras, todas inéditas para nós. Com todo respeito ao imenso litoral brasileiro, mas tenho andado mais interessada em percorrer trilhas e me banhar nas inúmeras águas de mamãe Oxum do que enfrentar balneários litorâneos muvucados e com preços extorsivos para turistas.

Fomos no carro dele, lavado e encerado para a ocasião. Não pude deixar de emitir uma opinião sarcástica:

"Vai voltar como se tivéssemos encarado um rally no Saara." 
"(risos) Eu sei, mas queria ver como um carro limpo fica imundo".

Logo no primeiro dia fomos conhecer uma cachoeira, onde passamos toda a tarde. Foi muito gostoso e já deixei por lá minha energia urbana (no mau sentido). Não sei se por uma possível sensibilidade mediúnica, por alguma razão esotérica qualquer ou por mero alívio do estresse profissional, sinto que preciso sair da cidade com certa frequência e manter contato com a natureza, de forma mais intensa do que simplesmente frequentar parques urbanos ou jardins domésticos. Nesse sentido, o interior do Brasil é fértil em paisagens belíssimas e horizontes inspiradores, com uma natureza ainda preservada em vários pontos, apesar do crescente desmatamento.

Nem preciso dizer que ao voltarmos no fim da tarde para a pousada, depois dos respectivos banhos e de um delicioso jantar de comida vegetariana, rolou o inevitável sexo selvagem.

"Você nunca se cansa?"
"Já te disse que não. Que tal continuarmos?"
"OK, contanto que não seja até o sol nascer, porque amanhã temos coisas a fazer" (sexo tântrico... puts...)



No segundo dia nos propusemos a conhecer duas cachoeiras, mais distantes de onde estávamos. Como era de se esperar, o carro teve de percorrer estradas de terra que fariam um competidor do rally Paris-Dakar ficar impressionado. Juro que nunca vi tanta poeira, areia e cascalho. A impressão que eu tinha era de que, a qualquer momento, os parafusos do veículo iriam começar a desabar um a um, e no fim das contas ficaríamos como no carro do Fred Flintstone. Mas resistimos, apesar dos sacolejos e da poeira que parecia entrar até pelo ar condicionado. 

Ao chegarmos aos nossos destinos, tivemos de percorrer trilhas a pé, subindo e descendo por caminhos estreitos em meio à vegetação ressequida desta época do ano. As cachoeiras eram lindas, cercadas de verde, com água gelada que contrastava com o sol escaldante. Nadei mais do que uma sereia e "viajamos" no calor das pedras.

"A gente podia morar no interior, você não acha? Uma vida mais calma, sem estresse, cercado de verde e cachoeiras por toda parte..."
"Confesso que já pensei nisso algumas vezes, mas o problema é que sou urbana demais pra me adaptar ao ritmo do interior. Por alguns dias ou semanas vá lá, mas depois eu vou querer ir a cinemas, a teatros, frequentar restaurantes diferentes, enfim, vida cultural e social diversificada, coisas que não existem em cidades pequenas, só nas metrópoles".
"É, você tem razão. Talvez eu também sentisse falta".
"Pois é. Olha só, o Deep Purple vem ao Brasil no mês que vem. Como eu poderia assistir ao show dos caras numa cidadezinha minúscula do interior? Nunca!"
"Mas tu é roqueira mesmo, hein?" (risos)
"Sempre é dia de Rock, bebê" (risos mútuos)

Ao voltarmos no finzinho da tarde, nos dedicamos a uma tarefa que já vinha pensando há algum tempo: procurar um núcleo hoasqueiro para que eu pudesse ter uma experiência significativa com a sagrada Ayahuasca no interior; uma coisa bem terrunha, próxima à natureza e longe das neuras urbanas. Minha última experiência com o "chá" foi no ano passado e não foi das melhores. De fato, foi péssima, e eu queria tirar essa má impressão da minha consciência. Acabamos descobrindo um lugarzinho simpático, que eu já havia visto na internet, e decidi que o visitaria depois do jantar.

Fui para lá sozinha, já que ele não se liga nessas coisas místicas e esotéricas, tendo preferido descansar na pousada. Cheguei atrasada mas fui muito bem recebida. Sobre a experiência em si, digo que foi ma-ra-vi-lho-sa, como pouquíssimas vezes vivenciei. A "borracheira" chegou rápida e intensa, e foi miração a noite inteira. Aprendi muito com todas as visões, mas infelizmente não posso descrever em detalhes como foi porque seria como descrever a cor violeta a um cego de nascença. No fim dos trabalhos ainda tomei um caldo delicioso e ficamos todos os presentes mais algum tempo, juntos ao redor de uma fogueira, escutando a voz e o violão de um dos trabalhadores da Casa, num clima bem "bicho-grilo". Por pouco não decidi ficar na cidadezinha, me tornar vegetariana e adotar um look neohippie.

Voltei para a pousada às 4 h da madrugada, horário em que até o grilos estavam dormindo. Tirei minha roupa, fiel ao meu estilo de dormir, e me deitei de lado, até sentir a mão dele levantando meu lençol e deslizando sobre minha bunda. Lamentei, mas àquela hora e com o cansaço que estava, não havia negociação possível:

"Vou dizer isso em castelhano: "ni se te ocurra" (em bom português, nem pense nisso).

Ele desistiu, eu fechei os olhos e - literalmente - apaguei, para dormir um sono sem sonhos.

Naquela manhã o sol já invadia o quarto, quando percebi que ele lentamente separava minhas pernas. Meu torpor matutino me impedia avaliar a situação corretamente. Foi quando ele começou a me chupar de forma lenta e delicada. Já totalmente desperta, pensei em pedir para ele parar e me deixar dormir mais um pouco, mas não há fortaleza feminina que resista a uma boa sessão de cunilingus. Fiquei me contorcendo enquanto passava a mão em seus cabelos e, uma vez que já estava plenamente acordada, resolvi passarmos da introdução ao desenvolvimento da narrativa.



Como é do seu feitio, seguiu-se uma longa sessão de sexo selvagem, e nessa brincadeira acabamos perdendo o horário do café da manhã estabelecido pela pousada. Quando voltarmos preciso realmente ter uma conversa séria com ele com relação à maneira como ele faz sexo, algo que venho adiando há algum tempo. Se não fosse um toque meu, creio que teríamos perdido até mesmo a hora do almoço. Na hora do nosso banho, por uma questão de reciprocidade, foi minha vez de brindá-lo com um felatio, algo que homem algum no planeta Terra recusaria, mesmo faminto por causa do horário. Fizemos o check out e voltamos para nossa cidade depois do almoço, cansados, felizes e mais queimados de sol. 

Talvez a vida não seja feita de grandes momentos de felicidade, como nos "happy endings" de filmes hollywoodianos. Talvez a felicidade possível em nossas vidas seja aquela que nos trazem os pequenos e singulares momentos. Como almoçar com o namorado num povoado do interior, saboreando comida caseira numa casinha simples, com os pés empoeirados da terra da estrada e a pele recendendo a suor e a filtro solar, rindo sem motivo algum, enquanto lá fora ruge um calor de 34º C e uma secura de crestar a alma. Ou balançar as pernas na água gelada de uma cachoeira de águas cristalinas, contemplando peixinhos que, de vez em quando, vem mordiscar nossos pés. Ou ainda deitar-se à noite numa espreguiçadeira e contemplar as inúmeras estrelas e planetas da Via Láctea - espetáculo impossível no meio de uma cidade grande - enquanto jogamos conversa fora sobre o universo e o mundo em que vivemos. 

Talvez percamos tempo demais procurando "a grande felicidade" enquanto deixamos passar, por pura indiferença, os pequenos momentos felizes que dão sentido às nossas vidas. Então que venham mais momentos como esses, para sermos felizes em parcelas.

Um comentário:

M. disse...

O que mais invejei foi ver a Via Láctea, coisa que não vejo há muitos anos, seguida da miração a noite toda e da água limpa com peixinhos. Inveja do bem, claro :)