sábado, 6 de dezembro de 2014

Camila - parte 6


De tanto ir ao apê de Camila, Júlia não mais considerava difícil chegar até lá. A região continuava decadente, cujos sinais de ocupação humana àquela hora praticamente se reduziam aos moradores das raras famílias que ainda moravam nos prédios decrépitos. Resolveu apressar o passo para evitar a chuva que se avizinhava e ignorou os escassos usuários de crack que se concentravam numa esquina próxima, debaixo de uma marquise, conversando entre eles num balbuciar incompreensível. Curiosamente, todos pararam de falar quando ela passou, e quase todos voltaram os olhos para baixo. Os outros, por alguma razão, passaram a contemplar um ponto fixo na parede.

- Oi, cheguei antes da chuva.

- Quem bom, seja bem vinda. Mas garanto que não iria chover antes que você chegasse.

- Você já pensou em mudar de bairro? Isso aqui é muito paradão.

- Já pensei nisso, mas é difícil hoje em dia encontrar bairros silenciosos. Tem poucas famílias por aqui e não há tráfego à noite, o que garante o sossego e o isolamento que preciso.

Enquanto tirava o casaco, Júlia percorreu a sala com o olhar, como sempre fazia, para conferir a nova decoração. Todas as paredes em concreto aparente, sem quadros afixados, uma mesa com tampo de vidro, luzes embutidas no teto, uma cadeira de couro preto sem braços e outra de couro preto montada em estrutura de aço tubular cromado. Tudo clean e funcional. Poucas curvas, praticamente apenas ângulos retos. E, claro, o indefectível baú, destoando de toda a decoração.

- Nunca vi nada tão despojado. Ainda não sei como você faz isso de mudar os ambientes tão rápido, mas até que essa decoração é legal. Gostei dessa cadeira, acho que já vi uma assim em algum escritório.

- É uma cadeira Wassily, um clássico da decoração de interiores. Muito boa para quem quer ter a experiência de ser imobilizada numa cadeira, seja com cordas, fita adesiva ou algemas. Ah, e o nome da decoração é Bauhaus. Ótimo estilo arquitetônico, ótima banda.

- (risos) Eu também gosto muito deles. E então, o que temos pra hoje?

- Hoje vamos tratar mais pormenorizadamente de um elemento anexo ao bondage: a mordaça. Já mencionei o assunto rapidamente em outra de suas visitas, mas hoje vou me deter mais no tema, porque existem detalhes importantes que deixei de lado. Para começar, lembre-se que em matéria de fetichismo os homens ficam mais excitados na mesma proporção em que a mulher fica mais indefesa. Nesse sentido, a mordaça transmite ainda mais vulnerabilidade à experiência, pois a mulher, além de impossibilitada de sair daquela situação, tampouco consegue se expressar, transmitir claramente seu incômodo, sua negação ou mesmo pedir para parar. 

Em seguida, Camila passou a discorrer sobre os diversos tipos de mordaça à disposição do público consumidor fetichista, das máscaras mais elaboradas, semelhantes a arreios para cavalos, aos elementos mais simples, como echarpes e fitas adesivas. Todos capazes de fechar, com mais ou menos facilidade, a boca de uma mulher. Mencionou detalhes, materiais, prós e contras, além de transmitir suas preferências.

"Pessoalmente, não gosto de ball gags, como você já sabe. As esferas são normalmente grandes demais para o tamanho da boca e depois de pouco tempo cansam o maxilar. Sem falar que você fica babando o tempo todo, o que acho nojento."

"Tem máscaras de couro com gag, bem elaboradas, mas isso é coisa de adepto do BDSM. Esqueça-as; são calorentas e você fica parecendo um soldado da Primeira Guerra Mundial com medo de gás de mostarda. Lembre-se sempre da questão estética do bondage. O que for esteticamente bizarro não merece nossa atenção."

Todas os modelos de mordaças mencionados por Camila eram retiradas por ela de dentro do baú, para serem exibidas enquanto mencionava as características de cada uma. Júlia permaneceu atenta às explicações, mas a certa altura começou a se perguntar como em um baú de dimensões normais podia caber tantos objetos. Será que Camila era uma "criadora de espaços"?

- O mais importante que tenho a dizer hoje é o seguinte: sugiro nunca colocar em sua boca qualquer tipo de pano, seja qual for o tecido, antes de ter sua boca fechada por uma fita adesiva. Sempre existe o risco de o pano escorregar para a garganta e você morrer por asfixia. Uma morte horrível, já que a vítima não pode fazer nada para se salvar, por estar imobilizada. E por motivos óbvios, não pode pedir socorro. Se ainda assim for usar um pano, seja um lenço ou algo do gênero, que não seja muito grande e que as pontas fiquem para fora da boca.

Júlia chegou a engolir em seco ao imaginar a cena. Ainda assim objetou:

- Mas eu já vi vídeos na internet em que as mulheres fazem isso.

- Eu já vi até vídeos de mulheres colocando a própria calcinha na boca (o que, por sinal, é bem nojento), mas o que eu disse é que "sempre existe o risco". Segurança acima de tudo - concluiu Camila em tom professoral.

- Entendi. E agora, fazemos o quê? 

- Agora vamos à parte prática. Vou imobilizar você na cadeira Wassily que você tanto gostou e vou usar uma silver tape como mordaça. Simples e eficaz.

- OK, vamo nessa.

Antes que Camila pudesse explicar que o foco da experiência do dia seria a mordaça e que, portanto, podia permanecer vestida, a garota já estava tirando os tênis, as meias e as calças. Em pouco tempo Júlia ficou inteiramente nua, com a naturalidade de quem já havia se desnudado nas ocasiões anteriores. Camila não teve coragem de voltar atrás e dizer que ela interrompesse seu strip tease espontâneo, nem mesmo quando sua aprendiz tirou a calcinha, a última peça que faltava.

Júlia acomodou-se na cadeira; seu corpo quente em contraste com o couro frio. Para não deixar marcas suspeitas aos olhares curiosos, Camila enfaixou os pulsos e os calcanhares da garota com panos, antes de colocar as algemas. 

- Agora, pressione os lábios, por favor. Não vou colocar nada dentro da sua boca. Você vai verificar que, mesmo que a língua possa se mexer livremente, o simples fato de não poder mover os maxilares vai dificultar sua fala o suficiente para que não possa transmitir o que quer. Seu parceiro ou não entenderá direito o que você quer dizer ou vai fingir que não entendeu. Em ambos os casos, ele ficará excitado com suas tentativas de comunicação, sobretudo se forem de protesto. 

- E a safeword? - perguntou a garota.

- Aprendeu, hein? O que você sugere?

- Que tal dois estalar de dedos em ambas as mãos?

- Como quiser. 

Camila cortou um pedação de silver tape e de forma delicada, mas segura, fechou a boca de Júlia. Depois pegou uma cadeira e sentou-se a distância regular de sua jovem aprendiz, bem em frente dela. Buscou novamente estampar o rosto mais neutro possível, ainda que com certa dificuldade, em razão da cena: uma garota linda, totalmente nua, mexendo os pulsos e a cabeça, numa simulação de fuga que - na prática - seria impossível. O som metálico das algemas, aliado aos murmúrios de Júlia, soavam como uma sinfonia para os ouvidos de Camila. Schubert não faria melhor.

Ainda assim, manteve a compostura e a "poker face", mesmo mudando de posição na cadeira de vez em quando, mais por uma sensação de inquietude erótica do que por incômodo postural. Sua vontade era de segurar os seios da garota, apertá-los lenta e firmemente, brincar com aqueles mamilos rosados usando o indicador e o polegar. Quem sabe até percorrer o interior das coxas brancas com os lábios e a língua, dos joelhos até o sexo. Mas tudo ficou apenas no fértil campo da imaginação. Autocontrole über alles.

"As coisas que não faço pelo bondage..." - pensou Camila, enquanto sentia-se úmida por baixo do vestido negro. 

Com o passar do tempo, Júlia passou a exibir inequívocos sinais de cansaço: a cabeça baixa, a redução dos movimentos dos braços, os silêncios mais longos... tudo atestava que já seria hora de encerrar a experiência. Logo ela estalou os dedos e Camila pegou as chaves das algemas, não sem um longo e disfarçado suspiro. Na hora do chá após as experiências, que já estava se tornando uma tradição, ela perguntou:

- E então, o que achou especificamente do fato de não poder falar?

- Me senti realmente mais vulnerável. Podia murmurar alguma coisa e fazer alguns sinais com o corpo pra dizer que queria encerrar a experiência ou que estava doendo, mas na verdade eu estava totalmente nas suas mãos. 

- É por isso que eu recomendei que você sempre seguisse a Lei do Bondage: "nunca se deixe imobilizar por uma pessoa mais doida do que você". 

- (risos) É, eu lembro dessa "lei". Mudando de assunto, já tem planos pro Natal?

- Eu não comemoro o Natal. Quando vejo aquele monte de gente vestida de Papai Noel nos shoppings e na frente das lojas populares, penso logo em Smith...

- Will Smith?

- Smith & Wesson. - respondeu Camila enquanto tomava mais um gole de chá, sem ter muita certeza de que Júlia havia entendido a ironia.

3 comentários:

M. disse...

Good evening, Val! Mesmo não tendo mais esse hobby, sempre gosto do seu estilo de escrever e a ambientação. Cadeiras Bauhaus sempre foram um item favorito meu, não apenas para decoração. Continuo a conversa na inbox.

M. disse...

P. S. Gostei da "Primeira Lei de Valeria".

Artur disse...

Adorei! Apesar de se parecer com a parte 5, gostei de Júlia ter sido amarrada à uma cadeira. Adoro ver mulheres amarradas em cadeiras. Nos próximos capítulos vc poderia explorar cenas lésbicas, visto que camila tem tais desejos. Bondage lésbico tb é bem excitante!